Fichamento Hertzberger parte "A - Domínio Público"

 O ensaio de Vilém Flusser, "DESIGN: OBSTÁCULO PARA A REMOÇÃO DE OBSTÁCULOS?", e a seção "A - Domínio Público" do livro Lições de Arquitetura de Herman Hertzberger entrelaçam-se na discussão sobre a responsabilidade do criador e a liberdade no ambiente construído.

Flusser estabelece que um "objeto de uso" é, paradoxalmente, um obstáculo lançado para remover outros obstáculos. A totalidade desses objetos (a "cultura") revela uma dialética: ao progredir, vencemos obstáculos (o mundo problemático) e os transformamos em cultura, mas esses mesmos objetos se tornam novas obstruções ao nosso caminho. O designer lança um projeto no caminho de outras pessoas, e o dilema central é como configurá-lo para que minimize as obstruções e maximize a ajuda aos sucessores. A questão da responsabilidade é crucial nesse processo. O design responsável enfoca o aspecto intersubjetivo, dialógico e comunicativo do objeto, em vez de seu aspecto meramente objetivo e problemático. Quando o design é criado irresponsavelmente, com atenção voltada apenas para o objeto, ele encolhe o espaço da liberdade na cultura.

Hertzberger, ao tratar do Domínio Público, oferece um caminho para essa responsabilidade no campo da arquitetura. O arquiteto deve lidar com a relação entre o público (acessível a todos, responsabilidade coletiva) e o privado (acesso determinado por um grupo, responsabilidade individual) de forma relativa, e não como opostos estanques. A chave para um projeto bem-sucedido reside no "intervalo" entre esses dois domínios, que estimula a inter-relação e o compromisso mútuo entre as pessoas. O design do espaço público deve ser feito com uma forma "convidativa", que permita a apropriação e a diferenciação territorial, transformando o "usuário em morador".

Essa abordagem de Hertzberger reflete o design responsável de Flusser. Ao focar na criação de formas que convidem à apropriação e facilitem o encontro, o arquiteto prioriza a dimensão dialógica e intersubjetiva do objeto de uso (a edificação ou o espaço público), em linha com a responsabilidade definida como a "decisão de responder pelos outros" ou "entrar em diálogo com" eles. Assim, o projeto arquitetônico deixa de ser um obstáculo rígido (irresponsável) e passa a ser um veículo de comunicação que, ao minimizar as obstruções, contribui para uma cultura com "um pouco mais de liberdade".

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